23 23UTC novembro 23UTC 2006

-Paulo Coelho-
Um dos monges de Sceta cometeu uma falta grave, e chamaram o ermitão mais sábio para que pudesse julga-la.
O ermitão se recusou, mas insistiram tanto, que ele terminou por ir.
Chegou ali carregando nas costas um balde furado, de onde escorria areia.
- Vim julgar meu próximo - disse o ermitão para o superior do convento.
- Meus pecados estão escorrendo detrás de mim, como a areia escorre deste balde. Mas, como não olho para trás, e não me dou conta dos meus próprios pecados, fui chamado para julgar meu próximo!
Os monges desistiram da punição na mesma hora.
21 21UTC novembro 21UTC 2006

-Paulo Coelho-
Uma velha estória infantil nos fala de D. Baratinha - que encontrou uma moeda ao varrer sua casa. Depois de ficar muito tempo na janela, escolhendo o pretendente adequado aos seus medos e anseios, terminou casando-se com João Ratão. Como todos sabemos, João Ratão caiu na panela do feijão.
Muitas vezes em nossas vidas, encontramos uma moeda que nos é dada pelo destino, e achamos que este é o único tesouro de nossas vidas. Terminamos por valoriza-lo tanto, que o destino - o mesmo que nos entregou esta moeda - se encarrega de toma-la de volta.
Quem tem muito medo de escolher, sempre escolhe errado.
Fragmentos de um diário inexistente - VII
17 17UTC novembro 17UTC 2006

-Paulo Coelho-
Preciso viver todas as graças que Deus me deu hoje.
A graça não pode ser economizada.
Não existe um banco onde depositamos as graças recebidas, para utilizá-las de acordo com nossa vontade. Se eu não usufruir destas bênçãos, vou perde-las irremediavelmente.
Deus sabe que somos artistas da vida.
Um dia nos dá formão para esculturas, outro dia pincéis e tela, outro dia nos dá uma pena para escrever.
Mas jamais conseguiremos usar formão em telas, ou penas em esculturas. A cada dia, o seu milagre.
Preciso aceitar as bençãos de hoje, para criar o que tenho; se fizer isso com desapego e sem culpa, amanhã receberei mais.
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Paulo Coelho
Diário VIII
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